Artigo da Semana
17 de Dezembro de 2008

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Por Sandra Cardoso

“É estranha, a Vida...”

Sempre fui extremamente pratica e pouco crente no que não vejo, sinto, ou possa meter ao microscópio para constatar que é mesmo assim, ou estão a inventar!

Estes últimos tempos tem sido estranhos, alias mais estranhos do que o costume, estranhos porque a morte que anda sempre tão perto de mim, mostrou-se mais uma vez implacável e levou alguém que eu gostava… alguém que não estava doente, que não era velho, que nem teve nenhum acidente, apenas o levou, numa manhã normal de trabalho, e não o devolveu… Não sei o que quebrou dentro de mim nem sei se será ainda por muito tempo, só sei que penso na morte como algo perto de mais, demasiado ocasional, e nada selectiva….

De todos os que já perdi, entre humanos e animais, ficou sempre a sensação de que poderia fazer alguma coisa antes… e como infelizmente a morte passou a ser algo rotineiro do meu dia, aprendi a dizer eu amo-te, tão mais facilmente, tão mais livremente… Alguns dias antes de perder este amigo, tive a oportunidade de lhe dizer que o amava muito, de lhe dizer quanto gostava dele, e como era uma honra ser da sua equipa de trabalho… Não sei bem o porque, mas disse-o ao telefone, e mais uma vez senti que era recíproco… ele, tal como eu, amava os amigos, a vida e o eterno sorriso, a eterna risada… E foi o ultimo dia em que pôde ouvir a sua voz a dizer, “ eu também te amo…”, após alguns minutos, encontramos finalmente o hotel da reunião, e demos um abraço, ele entre todos os amigos que tem, entre todos os sorrisos e excitações de mais uma reunião… a ultima vez que o vi, já não lhe disse isso, apenas trocamos 3 ou 4 palavras profissionais, e seguimos caminhos diferentes…

Quando soube que a morte o tinha raptado de nós, lembrei-me que lhe tinha dito o que sentia, lembrei-me que lhe disse mais uma vez o quanto grande a nossa amizade e o quanto ele era importante na minha vida… e assim, fiquei até hoje, sem conseguir descrever ainda o que sinto, sem conseguir apagar o numero de telefone dele da lista, a olhar para o quadro que me pintou e que esta no mesmo sitio de sempre, mas parece que agora o vejo mais...

Não vou dizer o que todos pensam… tanta gente por ai que não faz falta… pois…
Tanto animal que sofre nestas ruas, doentes, na borda da estrada em grande agonia, uivam e pedem à morte que venha e ela não vem, mas tantas outras vezes os animais que conseguimos salvar estão a começar a entender que a vida tem mais do que sofrimento e dor, e ela chega e arranca-os das minhas mão, das tuas mãos, das nossas mãos… quantas vezes grito aqui sozinha, quantas vezes peço para que não os leve, porque tudo já foi feito, porque são tão pequeninos, porque já sabem o que é o amor, o que é ser amado, e mesmo assim, mesmo com todos os meus gritos e teimosias, ela leva-os para longe… estranho, injusto, quase ridículo…

Fazer o que? Aprender mais nos livros como enganar esta Senhora vestida de negro! Fazer mais perguntas aos Professores, de manobras e protocolos, que me façam entender o que tenho de fazer para a enganar… e mais? Amar! Dizer que amamos quem amamos, dar beijos, abraços, sorrisos, obrigadas… O amor cura tanta coisa…. E se não curar o corpo, pelo menos a alma cura….

Não gosto de dar conselhos, porque detesto receber, por isso prefiro encarar isto como sugestões… Amem, não sejam maus, não distribuam maldade, crueldade, intolerância, distribuam sorrisos, sorrisos verdadeiros, obrigadas sentidos…
E talvez, assim, me possam ensinar uma maneira de entender melhor tudo isto… que é a estranha vida…

Sandra Duarte Cardoso

Lisboa, 17 de Dezembro de 2008
www.sosanimal.com

sandra.cardoso@sosanimal.com

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