Artigo da Semana
26 de Novembro de 2006


Por Sandra Cardoso

Somewhere over the rainbow…

Ás vezes preciso de uma pausa, preciso de um bocadinho, para ver coisas que temos tendência em ignorar, esquecer ou mesmo ver!
O Sol, o céu, o mar… sentir o vento nos cabelos, a areia nos pés… o cheiro da cidade, o cheiro do campo, o cheiro do mar…
O dia é composto por tarefas, e por mais rápido que se ande temos sempre a sensação que deixamos alguma coisa a meio…
Depois de muito pensar, de ler alguns livros e de falar com algumas pessoas, dei conta que os humanos em geral, deixam tudo para amanha, é genético… só quando são pressionados por algo ou alguém, dão corda aos sapatos e fazem tudo!
Gabriel Garcia Marques, quando soube que tinha um cancro, passou a escrever de forma diferente, falou mais na vida que na morte… estranho não? Agora que estava mais perto da morte, falava na vida… pois, é basicamente como somos…
Não sou excepção, ando todos os dias a pensar fazer uma coisa, e vou adiando, por isto, por aquilo… e não o faço! Tenho desculpas boas para mim própria, e os dias vão passando...
Tal como a minha visita ao meu sitio encantado! Se vos contar que já passei lá umas 5 vezes e acabo por seguir em frente, porque esta a chover, porque não tenho lugar para a carrinha, porque, porque… a verdade é que penso em lá ir todos os dias, porque sei que lá, é o único sitio que encontro o que ando à procura…
A última vez que lá estive, deve ter sido a uns 2 anos… incrível, o tempo voa, e o que mais fazemos é apenas queimar tempo… e lá encontrei exactamente o que procurava!
Vim triste, porque até o paraíso esta a ser destruído… mas vim cheia de esperança, cheia de força…
Uma das vezes que lá foi, estava tão vazia, que me deitei numa das pontas, sentir a pedra fria, ouvi o riso das crianças no recreio, senti o sol na pele, o perfume de Lisboa, a humanidade do Tejo… senti tudo! Ali era o meu pequeno mundo! Desde miúda que ficava ali a olhar para as casas e a imaginar como faria, como as recuperava, como as pintava, o que fazia aos quintais… horas nisto! Em vez de brincar com bonecas, brincava com a mente, e lá ficava eu horas, a recuperar Lisboa, a sua história, a sua cultura e a sua riqueza arquitectónica…
Em miúda sentia que o tempo não passava, e a porcaria dos 16, 18 anos nunca mais chegavam… ouvia os velhos a dizer que depois dos 18 isto era um tirinho!
Não é um tirinho, mas realmente passa rápido à brava….
Já pararam para pensar, que andamos todos a correr para o fim, para a morte!
Andamos todos à espera que amanha seja melhor, que o fim do mês chegue, que o fim do ano venha, que as horas no escritório passem… corremos com uma força furiosa para o fim, e conscientes ou não, estamos cheios depressa de lá chegar!
No canil o tempo é outro contra-senso… é bom que o tempo passe e que mais um menino seja adoptado, mas por outro lado o tempo passa, mais meninos chegam! Doentes, tristes, com dores, com tristeza, com filhos, com sonhos, com esperanças… e depois o tempo passa, ninguém os vai buscar, o fim chega… através de uma agulha, que até nem dói muito… mas dói, não ter direito a sentir o quentinho de um cobertor, o sabor de uma refeição, o calor de uma festinha, a ternura de um abraço…
Nascer para sofrer e morrer…
O Igor, tinha esperança, fez frente aos vírus, comia a sua ração para se manter vivo, aproveitava cada raio de sol, cada passeio, cada abraço, como se fosso último, ia para as campanhas cheio de esperança, e quando chegava a hora de voltar, olhava para mim com a certeza que voltava!
Da última vez, prometi que já faltava pouco, prometi que existe mais qualquer coisa, mesmo que seja por detrás do arco-íris!
Fiz uma promessa que não cumpri, e o tempo do Igor chegou ao fim… e eu não o tirei de lá, não fui ao sítio encantado, não disse o que tenho preso na garganta, não tratei de resolver todos os pendentes… e o tempo passa… para mim! Porque para o Igor, já acabou o tempo da corrida para o fim…
Não acredito em deus, nem em céu… por isso, talvez seja aqui o fim de tudo…
Mas acredito em energia e no amor… mesmo que por vezes parece não chegar…

Adeus Igor!
 

Sandra Duarte Cardoso
Lisboa, 19 de Novembro de 2006
www.sosanimal.com

sandra.cardoso@sosanimal.com

Artigos Anteriores

19 Novembro 2006

6 Setembro 2006

5 Julho 2006

24 Março 2006

12 Fevereiro 2006

26 Janeiro 2006

25 Dezembro 2005

Especial Dezembro 2005 - Aboim

27 Outubro 2005

26 Agosto 2005

27 Junho 2005

13 Junho 2005

1 Junho 2005

9 Maio 2005

11 Abril 2005